
O clássico anime, Death Note, continua relevante, mas alguns aspectos da obra ficaram mais desconfortáveis para o público moderno.
Poucos animes dos anos 2000 mantêm uma presença cultural tão forte quanto Death Note. Adaptada do mangá de Tsugumi Ohba e Takeshi Obata, a série produzida pela Madhouse acompanha Light Yagami, um estudante brilhante que encontra um caderno sobrenatural capaz de matar qualquer pessoa cujo nome seja escrito em suas páginas. O conceito rapidamente transforma a história em um duelo psicológico entre Light e o misterioso detetive L.
Quase duas décadas depois da estreia do anime, entretanto, uma revisão da obra pode produzir uma experiência bem diferente daquela vivida pelos fãs na época. Isso não significa que Death Note tenha perdido sua qualidade. Pelo contrário: análises recentes continuam destacando sua força como thriller psicológico e sua capacidade de discutir poder, justiça e responsabilidade.
O problema é que algumas escolhas narrativas, comportamentos de personagens e elementos visuais envelheceram de maneira bastante perceptível.
1. A violência é muito mais frequente do que parece
Apesar de grande parte das mortes não ser apresentada de maneira extremamente gráfica, assassinatos estão no centro da história. Light transforma o Death Note em uma ferramenta para executar criminosos e, posteriormente, qualquer pessoa que ameace seus planos.
Para espectadores acostumados com abordagens mais cuidadosas sobre violência, acompanhar um protagonista tomando decisões de vida ou morte repetidamente pode ser desconfortável. A própria estrutura da obra exige que o público observe a transformação de Light enquanto ele normaliza seus assassinatos.
2. Light não é exatamente o herói que alguns fãs lembravam
Um dos aspectos mais interessantes — e também mais incômodos — de Death Note é perceber que Light rapidamente abandona qualquer pretensão de justiça imparcial.
Ele começa afirmando que pretende eliminar criminosos para criar um mundo melhor, mas seu projeto gradualmente se transforma em uma busca por controle absoluto. Estudos publicados em 2026 continuam interpretando o personagem a partir de conceitos como responsabilidade, liberdade, má-fé e abuso de poder.
Reassistir à série atualmente pode tornar essa transformação ainda mais evidente.
3. A relação de Light com Misa envelheceu mal
Misa Amane continua sendo uma personagem importante para a narrativa, mas sua relação com Light pode causar estranhamento em espectadores contemporâneos.
Ela demonstra uma devoção extrema por Kira e aceita diversas situações emocionalmente abusivas para permanecer próxima dele. A dinâmica entre os dois frequentemente transforma Misa em uma ferramenta para os planos de Light, enquanto seus sentimentos são utilizados como vantagem estratégica.
Críticas feministas à série também apontaram problemas relacionados à representação feminina, misoginia e situações de assédio presentes na obra.
4. As mulheres têm pouco espaço para desenvolver seu potencial
Esse é provavelmente um dos pontos mais difíceis de ignorar atualmente.
Misa é a personagem feminina mais importante, mas sua narrativa está fortemente ligada ao romance e à obsessão por Light. Outras mulheres também acabam ocupando posições secundárias diante do enorme espaço concedido ao conflito entre os personagens masculinos.
Avaliações contemporâneas sobre a série destacam justamente a pouca diversidade de representação e o fato de personagens femininas aparecerem frequentemente associadas a situações de violência, perseguição ou vulnerabilidade.
5. O comportamento de Light pode ser interpretado de maneira diferente hoje
Quando Death Note estreou, parte do fascínio estava em discutir se Light tinha uma justificativa para eliminar criminosos. Atualmente, porém, o contexto social torna mais evidente o perigo da ideia de uma única pessoa decidir quem merece viver.
Pesquisas acadêmicas recentes identificam na série críticas ao autoritarismo, ao abuso de poder, ao relativismo moral e às limitações do sistema de justiça.
Ou seja, aquilo que inicialmente poderia parecer apenas um jogo intelectual entre Kira e L ganha uma dimensão política e ética muito mais perturbadora.
6. O ritmo depois de L pode dividir os espectadores
O confronto entre Light e L é considerado por muitos fãs o coração de Death Note. A tensão entre os dois funciona como uma partida de xadrez na qual qualquer erro pode significar a morte.
Depois desse arco, entretanto, a dinâmica muda consideravelmente. Novos personagens assumem posições importantes e o ritmo da narrativa passa a ser diferente.
Para quem chega ao anime esperando que a intensidade inicial permaneça constante durante os 37 episódios, essa mudança pode ser frustrante.
7. Algumas soluções dependem demais da inteligência dos personagens
Outro aspecto que pode chamar atenção em uma revisão é a quantidade de regras, planos e contra-planos existentes na história.
O anime frequentemente exige que o espectador acompanhe estratégias extremamente elaboradas, identidades falsas e regras específicas relacionadas ao Death Note. Quando tudo funciona, o resultado é fascinante. Quando não funciona, determinadas decisões podem parecer convenientes demais.
Ainda assim, a batalha intelectual entre Light e L continua sendo apontada por análises recentes como uma das principais razões pelas quais a série permanece atraente.
8. O visual e alguns elementos dos anos 2000 denunciam sua idade
Por fim, existe uma razão simples: Death Note é uma obra de 2006.
A direção, a animação, os designs, a trilha sonora e a estética gótica continuam marcantes, mas determinadas escolhas visuais e narrativas carregam claramente a identidade de sua época. Isso não necessariamente representa um defeito, mas pode criar uma barreira para espectadores acostumados às produções contemporâneas.
Curiosamente, esse envelhecimento também faz parte do charme da série. Uma análise publicada em 2026 destaca justamente como Death Note continua funcionando porque sua história ultrapassa o suspense sobrenatural e aborda corrupção, poder e responsabilidade.
Death Note ainda vale a pena?
Sim. Talvez justamente porque alguns de seus elementos ficaram mais difíceis de assistir.
Revisitar Death Note atualmente permite enxergar aspectos que poderiam passar despercebidos na adolescência. Light deixa de ser apenas o protagonista genial enfrentando um detetive excêntrico e passa a representar uma discussão muito mais ampla sobre autoridade, ego, justiça e o perigo de acreditar que alguém possui conhecimento suficiente para decidir o destino de outras pessoas.
Quase 20 anos depois, o título continua provocador. E talvez esse seja seu maior mérito: mesmo quando certas escolhas envelheceram mal, a pergunta central da obra permanece assustadoramente atual — o que aconteceria se uma pessoa comum recebesse o poder absoluto de decidir quem deve morrer?







