China avança para lançar missão que trará amostras de Marte à Terra em 2028

Marte

Missão Tianwen-3 pode colocar a China na dianteira da corrida por amostras do Planeta Vermelho (marte) e buscar evidências de vida extraterrestre.

A China está acelerando os preparativos para uma das missões mais ambiciosas da história da exploração espacial. A Tianwen-3, primeira missão chinesa destinada a coletar material da superfície de Marte e trazê-lo de volta à Terra, está avançando para uma possível decolagem em 2028. Caso o cronograma seja mantido, a iniciativa poderá colocar Pequim na liderança de uma corrida científica que envolve algumas das maiores agências espaciais do planeta.

A missão ganhou ainda mais atenção nesta semana depois que Hou Zengqian, cientista-chefe da Tianwen-3, afirmou que a busca por possíveis sinais de vida passada em Marte será o principal objetivo científico do projeto. A declaração foi feita durante a Conferência Internacional de Exploração do Espaço Profundo de 2026, realizada em Hefei, na China.

Um possível “momento Sputnik”

O avanço chinês já provocou comparações com o histórico Sputnik, o primeiro satélite artificial colocado em órbita da Terra pela União Soviética em 1957.

Para Scott Hubbard, ex-diretor do Centro de Pesquisa Ames da NASA e antigo responsável pelo programa de Marte da agência, se o cronograma chinês for realmente cumprido, a missão poderá representar um novo momento Sputnik. Segundo ele, a China não apenas chamaria a atenção mundial, mas poderia se tornar o primeiro país a obter amostras de Marte capazes de revelar evidências de vida extraterrestre.

A comparação não significa que a China já tenha vencido a corrida. A Tianwen-3 ainda precisa superar diversos desafios tecnológicos antes de colocar material marciano em laboratórios terrestres.

Como funcionará a Tianwen-3?

A arquitetura planejada é extremamente complexa. A missão contará com lander, veículo de ascensão, módulo de serviço, orbitador e módulo de reentrada na Terra.

A China pretende utilizar dois foguetes Long March 5 para enviar os componentes da missão a Marte. Um dos lançamentos deverá transportar o conjunto responsável pelo pouso e coleta das amostras, enquanto o outro levará elementos destinados à operação orbital e ao retorno do material para a Terra.

O objetivo é coletar pelo menos 500 gramas de material marciano, incluindo rochas e solo. Depois, as amostras deverão ser colocadas em um veículo capaz de deixar a superfície de Marte e encontrar a espaçonave que permanecerá em órbita.

Se tudo ocorrer conforme planejado, o material poderá chegar à Terra por volta de 2031.

A grande pergunta: Marte já teve vida?

A busca por sinais de vida é o coração científico da missão.

Os pesquisadores chineses querem investigar possíveis biossinais, procurando evidências microscópicas, moleculares e isotópicas que possam indicar que Marte já abrigou organismos no passado.

A escolha faz sentido porque o planeta vermelho parece ter sido muito diferente bilhões de anos atrás. Existem evidências de que Marte possuía água líquida, uma atmosfera mais densa e um campo magnético global, condições que poderiam ter favorecido ambientes habitáveis.

Uma análise detalhada de amostras diretamente em laboratórios terrestres permitiria utilizar instrumentos muito mais sofisticados do que aqueles que podem ser enviados a bordo de um rover.

Amostras de Marte podem mudar a ciência

Trazer material de Marte para a Terra seria um avanço gigantesco porque os cientistas poderiam examinar as rochas com equipamentos que não precisam obedecer às limitações de peso, energia e tamanho de uma missão espacial.

Além de procurar sinais de vida, as amostras poderiam revelar informações sobre a geologia marciana, a evolução do clima, a presença de água no passado e as condições necessárias para a habitabilidade.

Um estudo publicado na Nature Astronomy descreve nove grandes temas científicos relacionados à Tianwen-3, incluindo justamente a investigação de possíveis sinais de vida e a evolução das condições habitáveis do planeta.

China também precisa evitar contaminar a Terra

Existe, porém, uma preocupação tão importante quanto encontrar vida: garantir que qualquer material trazido de Marte seja tratado com extrema segurança.

A China está planejando uma estrutura de proteção planetária para lidar com as amostras. O laboratório deverá realizar procedimentos de esterilização, abertura dos recipientes, processamento do material e avaliação de possíveis riscos biológicos.

A ideia é proteger tanto Marte contra contaminação causada por organismos terrestres quanto a Terra contra qualquer material potencialmente perigoso que possa estar presente nas amostras.

A corrida contra os Estados Unidos

O avanço da Tianwen-3 também ganha importância por causa das dificuldades enfrentadas pelo programa americano de retorno de amostras de Marte.

Enquanto a China mantém o objetivo de lançar sua missão em torno de 2028, o cronograma americano permanece muito mais incerto. Isso cria uma possibilidade histórica: caso o projeto chinês seja executado conforme planejado, a China poderá ser a primeira nação a trazer amostras de Marte para a Terra.

Esse feito seria comparável, em importância científica, a alguns dos maiores marcos da exploração espacial.

2028 pode marcar uma nova era da exploração de Marte

Ainda existe um longo caminho entre o planejamento e a realização da Tianwen-3. Missões de retorno de amostras são extremamente complexas porque exigem pouso em outro planeta, coleta de material, lançamento de um veículo a partir da superfície marciana, encontro orbital e finalmente uma reentrada segura na atmosfera terrestre.

Mesmo assim, os preparativos estão avançando. O desenvolvimento dos modelos de voo está previsto para avançar em 2026, e a China espera definir o local de pouso até o fim deste ano.

Se o cronograma for cumprido, 2028 poderá ser o início de uma das missões mais importantes da história da exploração espacial. E, alguns anos depois, quando as primeiras amostras chegarem aos laboratórios terrestres, a humanidade poderá finalmente descobrir se Marte preservou em suas rochas alguma evidência de que a vida surgiu além da Terra.

Nesse cenário, a expressão “momento Sputnik” deixaria de ser apenas uma comparação e poderia representar o início de uma nova corrida espacial — desta vez, em busca das primeiras pistas concretas de vida em outro planeta.