Estrelas “vampiras” podem criar alguns dos objetos mais extremos do Universo, revela novo estudo

estrelas

O Universo acaba de ganhar mais uma história digna de ficção científica. Um novo estudo indica que algumas das estrelas de nêutrons mais extremas podem nascer de um processo bastante incomum: anãs brancas que “roubam” matéria de estrelas companheiras antes de finalmente entrarem em colapso.

A descoberta, divulgada em 16 de setembro de 2026, ajuda a explicar um fenômeno conhecido como colapso induzido por acreção (AIC, na sigla em inglês). Durante esse processo, uma anã branca recebe material de uma estrela próxima até atingir condições capazes de provocar seu colapso e transformá-la em uma estrela de nêutrons.

Quando uma estrela morta vira algo ainda mais extremo

As anãs brancas são os restos compactos deixados por estrelas semelhantes ao Sol depois que elas esgotam seu combustível nuclear. Apesar de extremamente densas, elas são muito diferentes das estrelas de nêutrons, que comprimem uma quantidade de matéria comparável à do Sol em uma esfera com apenas algumas dezenas de quilômetros de diâmetro.

Normalmente, estrelas de nêutrons surgem quando estrelas muito mais massivas explodem como supernovas. Porém, o novo trabalho mostra que existe outro caminho possível.

Nesse cenário, uma anã branca composta principalmente por oxigênio, neônio e magnésio encontra-se em um sistema binário e começa a retirar material de sua companheira. Esse processo pode aumentar progressivamente sua massa até que a gravidade vença a pressão que sustentava o objeto.

O resultado é um colapso extremamente rápido, transformando a antiga anã branca em uma estrela de nêutrons.

O segredo está na velocidade com que a matéria é roubada

O estudo revela que simplesmente acumular matéria não é suficiente. Existe uma espécie de “zona perfeita” para que o colapso aconteça.

Se a anã branca absorver material devagar demais, explosões conhecidas como novas podem expelir parte significativa da matéria acumulada. Por outro lado, se a transferência for rápida demais, ventos estelares, expansão do envelope ou interações entre as duas estrelas podem impedir que o objeto alcance as condições necessárias para o colapso.

Portanto, a estrela precisa ser “faminta”, mas não excessivamente. É justamente essa característica que levou os pesquisadores a compararem o processo a uma espécie de situação cósmica de “Cachinhos Dourados”, na qual tudo precisa estar na medida certa.

O que acontece dentro da anã branca?

Quando a anã branca de oxigênio, neônio e magnésio acumula massa suficiente, sua densidade aumenta drasticamente. Em determinado ponto, elétrons começam a ser capturados pelos núcleos de elementos presentes no interior da estrela.

Esse processo reduz a pressão eletrônica que ajudava a sustentar a anã branca contra a gravidade. Sem esse suporte, o colapso se torna inevitável.

A matéria é então comprimida violentamente, dando origem a uma estrela de nêutrons. Diferentemente de uma supernova tradicional, entretanto, o evento AIC deve expelir uma quantidade relativamente pequena de material.

Uma explosão diferente das supernovas tradicionais

Essa diferença pode ser fundamental para os astrônomos.

Em uma supernova comum causada pelo colapso do núcleo de uma estrela massiva, enormes quantidades de material são lançadas ao espaço. No colapso induzido por acreção, os modelos indicam que o evento deve ser mais fraco e rápido, justamente porque não existe o mesmo envelope espesso de material ao redor do núcleo moribundo.

As simulações também revelaram uma distribuição inesperada dos elementos ricos em nêutrons. Em vez de se concentrarem principalmente ao longo do eixo de rotação, eles podem surgir em regiões intermediárias, onde diferentes fluxos de matéria interagem.

Isso significa que o fenômeno pode apresentar aparências diferentes dependendo do ângulo pelo qual é observado da Terra.

Como os astrônomos poderão encontrar esses eventos?

Os pesquisadores acreditam que futuros observatórios poderão ajudar a identificar esses raros acontecimentos.

Os modelos indicam que um colapso induzido por acreção poderia produzir um brilho óptico e ultravioleta intenso durante aproximadamente dois ou três dias, acompanhado potencialmente por emissões de raios X e, posteriormente, ondas de rádio mais duradouras.

O Observatório Vera C. Rubin, entre outros instrumentos astronômicos, poderá ser particularmente importante para procurar esses eventos transitórios.

Uma nova peça no quebra-cabeça das estrelas de nêutrons

A descoberta não significa que todas as estrelas de nêutrons de baixa massa tenham surgido dessa maneira. Os próprios pesquisadores destacam que estrelas originadas por colapsos estelares convencionais também podem apresentar massas relativamente baixas.

Por isso, identificar uma estrela de nêutrons com determinada massa não seria suficiente para provar sua origem. Será necessário analisar outras características do evento e de seu ambiente.

Ainda assim, o estudo acrescenta uma peça importante ao complexo quebra-cabeça da evolução estelar. Uma estrela que aparentemente chegou ao fim de sua vida como uma pequena e densa anã branca pode, em circunstâncias muito específicas, receber uma espécie de “segunda chance” ao roubar matéria de sua companheira.

No final dessa história cósmica, porém, a transformação é radical: a antiga anã branca desaparece e dá lugar a uma estrela de nêutrons, um dos objetos mais densos e extremos conhecidos pela ciência.