
Uma descoberta escondida a quase 3 quilômetros de profundidade sob a pequena cidade de Ames, em Oklahoma, nos Estados Unidos, acaba de ganhar uma nova interpretação científica que pode mudar a compreensão sobre um dos períodos mais turbulentos da história do planeta. Pesquisadores descobriram que a chamada estrutura de impacto de Ames, uma cratera formada pela colisão de um asteroide, provavelmente é cerca de 100 milhões de anos mais jovem do que se imaginava.
A nova estimativa coloca o impacto próximo de 370 milhões de anos atrás, no período Devoniano Superior. Essa época coincide aproximadamente com a extinção Frasniana-Fameniana, também conhecida como crise de Kellwasser, um dos grandes eventos de extinção da história da Terra. O episódio eliminou uma parcela significativa da vida marinha, com estimativas indicando que cerca de 40% das espécies marinhas desapareceram.
Uma cratera escondida por quilômetros de rochas
A estrutura de Ames possui aproximadamente 16 quilômetros de diâmetro e está completamente enterrada por camadas sedimentares. Ela só foi identificada no início da década de 1990, depois que dados sísmicos revelaram uma enorme formação circular subterrânea.
Durante milhões de anos, sedimentos foram se acumulando sobre a região. Na época do impacto, porém, o que hoje é Oklahoma estava parcialmente coberto por um mar raso. A colisão modificou profundamente a crosta terrestre e criou a estrutura que posteriormente ficou soterrada.
Curiosamente, as fraturas produzidas pelo impacto também contribuíram para a circulação de fluidos subterrâneos. A estrutura de Ames acabou se tornando uma importante região de exploração de petróleo e gás natural.
O que mudou na idade da cratera?
Durante décadas, os pesquisadores acreditaram que o impacto havia ocorrido durante o Ordoviciano, aproximadamente 467 milhões de anos atrás. Essa interpretação estava relacionada principalmente a fósseis de conodontes encontrados nas rochas que preencheram a estrutura.
O novo estudo, publicado em Meteoritics & Planetary Science, utilizou uma técnica diferente: a datação U-Pb de cristais de zircão presentes nas rochas afetadas pelo impacto.
Os pesquisadores encontraram uma idade de aproximadamente 369,7 milhões de anos, com margem de ±5,9 milhões de anos. Além disso, imagens microscópicas dos cristais revelaram estruturas compatíveis com alterações provocadas por pressão extrema durante um impacto.
Isso muda completamente a posição da cratera na cronologia geológica.
O asteroide causou a extinção?
É aqui que a descoberta fica ainda mais interessante — mas também exige cautela.
Os cientistas não afirmam que o impacto de Ames foi responsável sozinho pela extinção Frasniana-Fameniana. A cratera tem dimensões significativas, mas o impacto provavelmente não teria sido suficientemente grande para explicar, isoladamente, uma crise de biodiversidade de escala global.
Outros fatores já foram propostos para explicar a extinção, incluindo alterações na oxigenação dos oceanos, intenso vulcanismo e até eventos extraterrestres adicionais. É possível que diferentes fatores tenham atuado simultaneamente.
O verdadeiro significado da descoberta está em colocar Ames no mesmo intervalo temporal de outros impactos associados ao Devoniano Superior.
Uma nova peça no quebra-cabeça
A pesquisa, portanto, não prova que um asteroide tenha provocado a grande extinção. Ela fornece, porém, uma nova pista para investigar se impactos extraterrestres tiveram participação nas mudanças ambientais que ocorreram naquele período.
Para a ciência, essa diferença é enorme. Uma cratera que antes era considerada parte de um evento de impactos ocorrido no Ordoviciano agora pode estar relacionada a uma época completamente diferente — justamente uma das fases mais importantes para compreender a evolução da vida marinha.
E o mais impressionante é que essa pista estava escondida quilômetros abaixo do solo de Oklahoma durante centenas de milhões de anos. Novas análises de outras crateras norte-americanas poderão revelar se o impacto de Ames foi um evento isolado ou parte de uma sequência maior de colisões que atingiu a Terra durante o Devoniano.







