
Houve uma época em que o Universo Cinematográfico da Marvel funcionava como um relógio suíço. Cada cena pós-créditos, cada piscadela no fundo do plano e cada artefato jogado no chão do Kamar-Taj tinha um propósito claro que explodia na tela alguns anos depois. Mas o jogo mudou. Com a expansão desenfreada de filmes e séries no Disney+, os ganchos abandonados começaram a se acumular feito poeira: Hércules jurando vingança em Amor e Trovão, Skaar caindo do nada em Mulher-Hulk e até o gigante Celestial petrificado no oceano em Eternos.
Nenhum desses esquecimentos, contudo, incomoda tanto quanto o que aconteceu com Karl Mordo lá em 2016.




No desfecho do primeiro Doutor Estranho, o personagem de Chiwetel Ejiofor rompe com Stephen Strange e com as práticas místicas após descobrir que a Anciã canalizava poder da Dimensão Sombria. Na cena pós-créditos, ele visita Jonathan Pangborn, rouba a energia mágica que permitia ao homem andar e dispara a frase que arrepiou o público nos cinemas: “Há magos demais.”
A premissa para uma sequência focada em Mordo caçando feiticeiros pelo planeta era perfeita. Mas o que a Marvel fez? Apresentou em Doutor Estranho no Multiverso da Loucura uma variante alternativa da Terra-838, membro dos Illuminati, enquanto o Mordo original da linha do tempo principal simplesmente sumiu do mapa. Uma frustração tremenda para quem investe anos acompanhando cada detalhe das franquias de heróis — um sentimento de expectativa não muito diferente da curiosidade voraz em torno de produções concorrentes, como quando vimos rumores misteriosos cercarem Scarlett Johansson em The Batman 2.
A brecha de ouro para Doutor Destino e Mordo
Uma década depois do aviso de Mordo, Avengers: Doomsday surge no horizonte não apenas como um colossal crossover de heróis, mas como o palco ideal para amarrar essa ponta solta sem parecer forçado.

Pense bem no cenário mágico atual da Terra: os feiticeiros foram linha de frente indispensável na batalha final contra Thanos em Vingadores: Ultimato. Pouco tempo depois, Wanda Maximoff massacrou dezenas deles no ataque ao Kamar-Taj. Se o Mordo da Terra-616 passou os últimos anos trabalhando nas sombras para erradicar o restante dos manipuladores de energia mística, o planeta está completamente desprotegido no campo arcano.
Isso entrega de bandeja a justificativa perfeita para a soberania do Doutor Destino. Victor von Doom não domina apenas ciência de ponta; ele é um dos magos mais formidáveis dos quadrinhos. Encontrar uma Terra praticamente desprovida de defensores místicos tornaria a invasão de Doom muito mais devastadora. Melhor ainda: nada impede que Destino coopte Mordo para sua própria aliança ou simplesmente aproveite o vácuo de poder deixado pela cruzada solitária do feiticeiro renegado.
Se os irmãos Russo pretendem fazer de Doomsday e Secret Wars o ápice do multiverso cinematográfico, resgatar velhos compromissos esquecidos pela narrativa é o caminho certo para reconquistar a confiança do fã raiz.
Fonte: ComicBook







