Por que Ex Machina, obra-prima da DC, merece uma série de prestígio na HBO — e não um lugar no DCU de James Gunn

Nem todo quadrinho com capa e poderes pertence ao mesmo saco dos filmes de ação pipoca. Enquanto o público acompanha as especulações sobre produções sombrias e projetos de peso — como o aguardado The Batman 2 e seus segredos de bastidores —, existe uma joia no catálogo da DC que implora por um tratamento completamente diferente: Ex Machina, criada por Brian K. Vaughan e Tony Harris para o selo WildStorm.

Publicada entre 2004 e 2010 ao longo de 50 edições, a história acompanha Mitchell Hundred, um engenheiro civil que ganha a bizarra habilidade de se comunicar com máquinas. Sob a identidade do vigilante “A Grande Máquina”, ele faz algo que reescreve a história contemporânea: durante os atentados de 11 de setembro, Hundred consegue impedir que o segundo avião atinja o World Trade Center. Transformado em herói popular imediato, ele decide aposentar o uniforme e capitalizar essa adoração pública para disputar e vencer a prefeitura de Nova York.

Ex Machina Wildstorm Brian K Vaughan
Image Courtesy of Wildstorm Comics

O choque entre poder extraordinário e politicagem mundana

A força da premissa está na desconstrução pura: voar com um jet pack e comandar circuitos não ensina ninguém a negociar com vereadores oposicionistas, fechar orçamentos bilionários ou lidar com tensões sociais complexas. Ex Machina dialoga mais com o ritmo afiado de The West Wing ou o cinismo de House of Cards do que com aventuras cósmicas ao lado do Superman.

Vaughan nunca fugiu de temas desconfortáveis. A narrativa disseca o sentimento pós-11 de setembro, quando o medo legitimava a erosão de liberdades individuais, trazendo debates sobre o Patriot Act, casamento igualitário, descriminalização de drogas e brutalidade policial. Trazer essa trama para as telas exige manter a ambientação original no início dos anos 2000, aproveitando duas décadas de perspectiva histórica sem diluir a acidez do roteiro.

Oscar Isaac em cena dramática

Por que um filme não daria conta do recado

Em 2020, o ator Oscar Isaac chegou a encabeçar o anúncio de um longa-metragem adaptando a HQ sob o título The Great Machine. O projeto acabou empacando, com o próprio astro admitindo mais tarde que a história não estava funcionando bem no formato compacto. Foi o melhor desfecho possível. Condensar 50 edições de intriga política em duas horas seria desidratar o que torna a obra memorável.

A HBO já provou ter a maturidade necessária para esse tipo de material. A minissérie Watchmen, comandada por Damon Lindelof, mostrou que quadrinhos politicamente carregados podem render televisão de primeiro escalão sem concessões ao formato infantilizado. A própria adaptação de DMZ explorou a instabilidade institucional de Nova York com peso e sobriedade.

Prender Mitchell Hundred à cronologia compartilhada de James Gunn no DCU apenas limitaria sua crueza dramática. Ex Machina precisa de espaço para respirar como minissérie fechada, mostrando que salvar uma metrópole com superpoderes é fácil — governá-la é o verdadeiro pesadelo.

Fonte: Comicbook